sábado, 19 de junho de 2010

A reconstrução urbana dos centros históricos

Numa experiência partilhada entre a Galiza (Escola Galega de Administração Pública) e Portugal (Núcleo de Estudos das AUtarquias Locais da Universidade do Minho), realizou-se, em Monção, no passado dia 18, o primeiro Seminário Luso-Galaico de Direito do Urbanismo, subordinado à temática em epígrafe.
Uma troca de experiências bastante profícua, onde todos os presentes aprenderam bastante em particular devido à qualidade dos oradores de ambos os países, académicos e políticos conhecedores e bons comunicadores.

Sessão de abertura. Da esquerda para a direita: Pablo Dorrego (Director da Escola Galega de Administração Pública ); José Moreira (Presidente da Câmara Municipal de Monção) e António Cândido de Oliveira (Catedrático da Universidade do Minho e Director do NEDAL).
1.º Painel: A participação dos cidadãos no direito do urbanismo. Da esquerda para a direita: Juan Arceo (Universidade da Corunha); Joaquim Rocha (Universidade do Minho) e Cândido de Oliveira (Universidade do Minho).
2.º Painel: A reabilitação urbana dos centros históricos. Da esquerda para a direita: Fernanda Oliveira (Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra); Viriato Capela (Universidade do Minho) e António Valdez (Fiscal especvial de Urbanismo da Galiza).
3.º Painel: O controlo administrativo no direito do urbanismo. Da esquerda para a direita: José Lopez (Faculdade de Economia da Universidade de Santiago de Compostela); José Moreira (Presidente da Câmara Municipal de Monção) e Luís Bacelar (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional Norte).
Sessão de encerramento. Da esquerda para a direita: Pablo Dorrego (Director da Escola Galega de Administração Pública); Viriato Capela (Universidade do Minho) e Cândido de Oliveira (Director do NEDAL).
Brevemente contarei apresentar um texto sobre a questão da reconversão urbana tendo em consideração todos os ensinamentos que aqui acabei por aprender.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A memória selectiva da senhora Presidente da CMA

Fui ontem assistir a mais uma reunião pública da Câmara Municipal de Almada.

E a minha crítica começa logo pelas instalações.
Primeiro, temos a mesa onde se encontram sentados os vereadores, todos de frente para o público mas sem se conseguirem enfrentar directamente uns aos outros, mais parecendo estar ali para um espectáculo do que para uma reunião e obrigando a uns quantos gestos ginásticos para que a Presidente consiga perceber que pretendem intervir.
Segundo, o estarem numa plataforma elevada do solo (quase parecendo um palco) reforça a ideia de representação.
Terceiro, a sala (acanhada para aquele efeito) onde cabem sentados cerca de 3 dezenas de munícipes, por ser numa cave, sem janelas, dá uma sensação de opressão.

Depois, a segunda nota negativa vai para o facto de, apesar da sala ser pequena, por vezes haver dificuldade em ouvir algumas intervenções (sobretudo do público) por a acústica do local ser deficiente.

Passando, de seguida, à reunião propriamente dita, não posso deixar de trazer à liça algumas questões procedimentais e que se prendem com uma temática por mim abordada no blogue INFINITO’S (artigos 1, 2 e 3): A não aprovação de actas das reuniões (e também referida pela nossa vereadora no início do mandato e aflorada na sua intervenção de ontem).
A sessão começa, os assuntos da ordem de trabalhos vão-se desenrolando, as intervenções dos vereadores sucedem-se, a senhora Presidente entre risos irónicos vai abanando a cabeça quando aquilo que houve não lhe agrada (o que acontece sempre perante as críticas da oposição), no final o público intervém, são-lhe dados esclarecimentos e depois temos o discurso triunfal de encerramento da edil (às vezes de quase uma hora)… e nada fica registado (convenientemente… pois assim não se pode provar o que foi afirmado e, em caso de polémica, sempre se dá a volta à questão dizendo que não foram essas as palavras utilizadas, que se interpretou mal o que se disse, e por aí adiante).
E, já agora, também não me apercebi que os vereadores presentes tivessem assinado quaisquer documentos, durante ou no final da reunião. Aliás, alguns deles até abandonaram a sala após a ordem do dia.
Ou seja, não tendo havido a aprovação da Minuta da Acta, ou em alternativa das Minutas individuais de cada deliberação, considerando que as propostas não foram subscritas pelos presentes naquele dia, isto significa que, volto a dizê-lo, a eficácia imediata das decisões está comprometida.
E fazer bem é, afinal, tão simples…

Quanto à matéria objecto de deliberação tivemos a substituição de um membro do Conselho de Administração da ECALMA que pediu a rescisão, dois processos disciplinares e várias propostas do vereador António Matos todas aprovadas por unanimidade:
Apoio financeiro a cinco agrupamentos de escolas para participação nas Marchas Populares no valor global de aproximadamente 11.000 euros;
Cedência do Pavilhão Municipal para as comemorações dos 100 Anos do Charnequense;
Parecer favorável à obtenção do estatuto de utilidade pública da associação White Sarks (de basebol) sediada na Escola Emídio Navarro;
Atribuição de um subsídio de 900 euros à Associação de Deficientes Portadores de Deficiência Intelectual;
Transferência de 200.000 euros para a Companhia de Teatro de Almada para apoiar a 27.ª edição do Festival de Teatro.

Apesar de nenhum dos vereadores da oposição (PS, PSD e BE) estarem contra a CTA nem tão pouco contra o FTA, que todos elogiaram, este assunto acabou por gerar bastante polémica por causa do modelo de gestão adoptado pela CMA para gestão do Teatro Municipal que foi entregue à companhia residente: a Companhia de Teatro de Almada que, na óptica da CDU tem o “direito moral” de ocupar aquele espaço.
Os vereadores da oposição questionaram os valores atribuídos anualmente para despesas correntes e programação (o ano passado foram mais de um milhão de euros) que consideram desproporcionados face aos valores atribuídos às outras instituições concelhias.
Amélia Pardal (a vereadora do Urbanismo mas que já foi dirigente na área da cultura), explicou que com as verbas que a CMA transfere o município poupa muito dinheiro pois se fosse a CMA a gerir o TMA os gastos eram superiores e, além disso, não existem carreiras na administração pública que enquadrem profissionalmente o pessoal que lá trabalha.
Paulo Pedroso (PS) referiu que estes mesmos argumentos justificar-se-ia a privatização de mais de metade do município. Além do mais o PS não considerava que os privados fossem melhores gestores do que a Administração Pública. Mas se é para entregar ao privado, então que se cumpram as regras do sector e se faça concurso público.

Helena Oliveira (BE) apresentou dados comparativos de anos anteriores e questionou as verbas atribuídas já este ano para gestão corrente. Colocou algumas dúvidas ao nível da informação que deveria ter sido disponibilizada aos vereadores e não o foi, como o Orçamento e as Contas da CTA e o relatório da Comissão de Acompanhamento da Gestão.
Nuno Matias (PSD) falou nas muitas outras fontes de financiamento, nomeadamente a venda de espectáculos pois até acabara de saber da adjudicação directa, pelo valor de 30.000 euros, que o Teatro de S. João (Porto) fizera de um espectáculo produzido pela CTA.

E a senhora Presidente teve uma espectacular intervenção, uma verdadeira lição de moral, para dizer a todos que:
«Não estamos aqui para fazer uma inspecção aos anteriores mandatos pois nem sequer estão aqui as pessoas da altura.»
«Não estamos a esconder nada a ninguém.»
«A Presidente tem sido a mesma. Mas podia não ser! O que nos responsabiliza a nós é o actual mandato.»
«Gostava que houvesse uma atitude menos condicionada aos papéis. Não nos podemos limitar àquilo que está nos papéis. Há muitas histórias que só estão na memória. Apostar apenas nas coisas formais é muito pobre para análise.»
«Há muitas coisas que não estão nos papéis mas que são conversadas e são, até, mais importantes.»
«Tem de haver mais abertura dos senhores vereadores.»
«Os nossos processos são de uma lisura completa. No nosso município não temos nenhum registo de violação do Estado de direito.»

Passado ao período de intervenção do público, pediram a palavra seis munícipes para colocar diversas questões, entre elas:
Obras no teatro antigo e apoio ao grupo que lá se encontra que fica sem sala para poder desenvolver o seu projecto;
Falta de electricidade, entre outras carências (que são muitas) no Bairro do 2.º Torrão, na Trafaria;
O licenciamento de um restaurante na Costa da Caparica tendo o empresário referido que com o atraso já estava a ficar falido antes sequer de inicial a actividade pois assumira uma série de compromissos e nunca mais tinha o estabelecimento a funcionar;
Sobre o IC20 e o mau estado do piso;
Desentendimentos entre os proprietários, a CMA e o Instituto das Estradas de Portugal por causa da expropriação de uma parcela de terreno;
Degradação de uma habitação (num bairro social) com apenas 4 anos, cheia de infiltrações

No final foram prestados alguns esclarecimentos pelos vereadores do pelouro respectivo e a reunião terminou com mais uma intervenção da senhora Presidente repetindo muito do que já se dissera (é o chamado discurso do eco) e enrolando argumentos por mais de trinta minutos.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Triste retrato da Administração Local





Trago-vos hoje esta notícia do Diário Económico (fim-de-semana), de 28-05-2010, porque me choca verificar que a incompetência e o laxismo grassam nas nossas autarquias. Felizmente há bons exemplos e muitas excepções à regra, todavia é incompreensível que se cometam falhas desta natureza... afinal, para que é que serve a formação profissional?
Estamos em 2010. E já lá vão quatro anos de aplicação do SIADAP à Administração Local (ao contrário do que a jornalista afirma - a propósito, bem podia ter-se informado melhor antes de escrever o artigo). Na minha óptica, tempo mais do que suficiente para se promover a aprendizagem das novas regras.
Com a publicação do Decreto Regulamentar n.º 6/2006, de 20 de Junho, o Sistema Integrado de Avaliação do Desempenho da Administração Pública (vulgo SIADAP), criado com a Lei n.º 10/2004, de 22 de Março e regulamentado com o Decreto Regulamentar n.º 19-A/2004, de 14 de Maio, foi aplicado à Administração Local.
Três anos depois o sistema foi revisto e publicada a Lei n.º 66-B/2007, de 28 de Dezembro, que só viria a ser adaptada à Administração Local através do Decreto Regulamentar n.º 18/2009, de 4 de Setembro, entrando em vigor no início do corrente ano.
O que aconteceu é que muitas autarquais (mercê do laxismo dos seus dirigentes e da conivência dos responsáveis políticos) ainda não tinham aplicado o SIADAP quando foi publicada a Lei n.º 12-A/2008, de 27 de Fevereiro, que implementou o novo regime de vinculação, de carreiras e de remunerações dos trabalhadores da Administração Pública. Aliás, há autarquias que apenas em 2010 vão começar a aplicar o SIADAP com receio da penalização de 10% sobre o valor das transferências do OE a que têm direito.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Estivemos, mais uma vez, nas Terras da Costa

Hoje, o deputado do Grupo Parlamentar do BE na Assembleia da República, Pedro Soares, a vereadora Helena Oliveira e os deputados municipais, Luís Filipe, Ermelinda Toscano e Henrique Pires, estiveram numa visita às Terras da Costa destinada a ouvir as preocupações dos agricultores.

O coordenador do Movimento de Cidadãos que está a liderar o processo, fez um resumo histórico do diferendo sobre a titularidade das terras (que opõe os rendeiros e a CMA), apresentou mapas e documentos diversos. E os agricultores falaram das razões da sua luta e da incapacidade de diálogo da CMA, criticando a atitude prepotente da autarquia e a utilização da força para mandar desocupar os terrenos ainda antes de o Tribunal decidir sobre quem é o efectivo proprietário das terras.

De tudo tomámos boa nota e mostrámos a nossa solidariedade para com os agricultores, em particular pelo acto de violência despropositado cometido pela CMA.

Brevemente voltarei a este tema, pois a notícia de hoje destinou-se, sobretudo, a informar da visita. Agora há que estudar a documentação disponível.

Mais informo que estamos a organizar um arquivo online, com dezenas de documentos sobre o assunto facilitando a procura de informação.

domingo, 16 de maio de 2010

Como combater o desemprego



O desemprego combate-se com actos e não com reacções. Através da criação de postos de trabalho, e não da sua eliminação.

O papel das Comissões de Trabalhadores – exemplo da Auto-Europa

No momento mais difícil de que há registo na sociedade portuguesa, do mercado de trabalho, deixo aqui o registo de como as Comissões de Trabalhadores podem e devem ter um papel importante na defesa de direitos, de qualificações e acima de tudo na solução de problemas entre a entidade empregadora e os trabalhadores com o exemplo da Comissão de Trabalhadores na Auto-Europa.

Neste momento, o Contrato Colectivo de Trabalho do Sindicato com maior representatividade dentro da Auto-Europa, afecto à CGTP, está em caducidade.

No inicio de 2009, a crise chegou à Auto-Europa, reflectindo-se de forma significativa na produção, face á quebra de procura no mundo dos modelos ali feitos. A empresa dispensou 254 trabalhadores contratados a agências de trabalho temporário, alguns deles com quase 6 meses de trabalho na Auto-Europa.

Tendo em conta esta situação, e o programa para o ano 2010, que previa o lançamento no segundo semestre de um novo produto na fábrica, a Comissão de Trabalhadores propôs à empresa a integração destes trabalhadores num programa de formação direccionado para as técnicas da construção automóvel, com a duração de aproximadamente 18 meses e cuja conclusão com aproveitamento garantiria a equivalência ao 12º ano e um contrato com a Volkswagen Auto-Europa.

Os argumentos utilizados pela CT foram essencialmente a necessidade de garantir a experiência anterior, a necessidade de garantir uma formação abrangente desde o Português ao Inglês, máquinas de CNC, da electricidade à mecânica, do desenho à informática, da soldadura à hidráulica e acima de tudo, a necessidade de garantir a os postos de trabalho destes trabalhadores, pois a maioria ainda não tinha trabalhado o tempo suficiente para poder usufruir do subsídio de desemprego.

A empresa respondeu que não tinha suporte financeiro para tal. Nós insistimos, informámo-nos onde e como arranjar tais suportes e constituiu-se uma parceria envolvendo o Governo (IEFP), a ATEC (academia de formação) e a Administração da Auto-Europa, conseguindo assim que os trabalhadores entrassem no curso.

A pró-actividade da CT neste processo, através das reuniões com a empresa e os contactos com o Governo, garantiu assim àquele grupo de trabalhadores em risco de irem parar ao desemprego sem qualquer apoio social e sem perspectiva de colocação no mercado de trabalho, que os mesmos pudessem auferir de mais qualificação (através da frequência dos cursos de formação), e ao mesmo tempo dos subsídios a que tinham direito (de formação, transporte e alimentação). Para além disso, conseguiu a CT que a Auto-Europa disponibilizasse, de forma gratuita, os seus transportes de e para a formação, bem como o direito à alimentação na Auto-Europa.

O contrato de formando assinado com o IEFP permitia que qualquer deles, a qualquer momento, pudesse sair desta acção.

Pelo caminho, ficaram alguns destes trabalhadores, pelas mais diversas razões. Uns porque tinham alguma dificuldade em acompanhar a formação, pois tinham que frequentar aulas para concluir o 9º ano, na sua zona de residência, da parta de manhã, e da parte da tarde tinham que frequentar o curso na ATEC. Outros foram encontrando emprego.

Outro exemplo do trabalho pró-activo da CT, aconteceu no dia 3 de Maio: cumprindo os acordos estabelecidos, foram admitidos 128 trabalhadores para os quadros da Auto-Europa. Este facto é um exemplo concreto de combate ao desemprego, da preservação dos postos de trabalho com direitos e qualificações.

Este exemplo reflecte bem a diferença concreta na procura de soluções viradas para os trabalhadores, num combate diário ao desemprego e num sistema de relações laborais activas. Reflecte inovação de comportamentos que, com a CT da Auto-Europa, passam por todos os compromissos por ela assumidos serem decididos por todos os trabalhadores, por votação em urna. Tudo é resolvido com a participação de todos, sempre!

O papel das Autarquias – em Almada, como é?

Como é sabido, e tem sido amplamente divulgado, a zona onde se situava a Lisnave vai transformar-se, num futuro próximo, e durante alguns anos, num estaleiro de obras para a edificabilidade de um projecto urbanístico que vai albergar mais de 1 dezena de milhar de pessoas, e que prevê a construção de equipamentos de hotelaria, restauração, diversão nocturna, espaços verdes e de lazer, prestação de serviços, etc. É o chamado Plano Almada Nascente – Cidade da Água.

Sem entrar em discussão sobre o Plano de Urbanização em si, e do ponto de vista da empregabilidade, este investimento é bom para o Concelho, pois trará novos postos de trabalho e novas receitas municipais, e ainda resolve um problema ambiental que ali existia.

Mas todos sabemos também que no concelho de Almada, em particular nas freguesias que constituem a cidade de Almada, o parque habitacional (público e privado) é um problema que ninguém pode ignorar, pois é evidente a sua degradação e deterioração.

E por isso, é preciso que o Executivo intervenha de forma activa e entusiasta, tal como o fez com o processo relativo ao Projecto de Almada Nascente, para que os almadenses não continuem a assistir à degradação do parque habitacional envelhecido nas restantes zonas da cidade e do concelho.

Este é um exemplo das assimetrias que se criam, quando não há uma preocupação de visão estratégica. É que não interessa só trazer mais projectos, desenvolvimentos e equipamentos. É preciso, em simultâneo, cuidar e preservar o que já por cá existe!

Jorge Gonçalves
Autarca BE na AF Cova da Piedade
(artigo de opinião publicado no jornal Notícias de Almada, de 14-5-2010)
Imagem: autor desconhecido (retirada da NET).